Você Nunca Vive o Mesmo Momento Duas Vezes


Há exatamente um ano, nesses mesmos dias, eu estava passando por um processo doloroso. Meu fiel companheiro de quatro patas chegava ao fim da vida do seu corpo. Os relances de alegria e os momentos de doçura ainda estavam lá, e isso tornou o processo um pouco menos doloroso.

Hoje penso que tudo o que vivi até então culminou naquele momento. Eu não seria capaz de conviver com aquele desconforto, o sofrimento do meu cãozinho amado, se antes não tivesse aprendido a conviver com o meu próprio desconforto.

Aprendido também a apreciar cada momento exatamente como ele é: único.

Posso ver alguém todos os dias, mas nunca vejo exatamente a mesma pessoa duas vezes.

Posso viver experiências parecidas e sentir emoções semelhantes todos os dias. Mas nunca vivo o mesmo momento duas vezes. Tudo está em constante
transformação. Por isso, cada momento é único.

A única constante é a mudança.”

Heráclito de Éfeso.

Eu tenho uma relação interessante com a morte. Ela desperta em mim os
sentimentos mais agoniantes e, ao mesmo tempo, os mais bonitos. Consigo
lembrar com clareza das reações que tive ao receber quase todas as notícias de
falecimento. As exceções são a morte do meu irmão e a do meu primeiro avô.

Com isso, decidi que não ia recorrer à eutanásia (jamais, mas especialmente aqui).
Preferi fazer tudo para que meu cachorro pudesse viver até o último segundo que
seu corpo permitisse.

Foi difícil. Ao mesmo tempo, profundamente valioso.

Ainda me recordo das voltas para casa depois de passar o dia na clínica, onde ele
tomava o soro e eu podia permanecer ao lado dele. Pude viver cada último segundo com ele, e isso vale mais do que qualquer dor que um dia eu pudesse considerar insuportável.

A grande lição que eu tirei de tudo aquilo é esta:

Posso voltar ao mesmo lugar, com a mesma pessoa, fazendo a mesma coisa, mas não será igual.

Nenhum minuto se repete. E acho que há algo especialmente precioso nisso.

Não há como nos acorrentarmos a nada por apego. Isso é uma ilusão. Nada daquilo a que tentamos nos agarrar em busca de segurança permanece. Tudo muda enquanto ainda estamos tentando segurar.

Tudo é efêmero. Tudo é passageiro. E, por isso mesmo, tão belo.

Porque você nunca vive o mesmo momento duas vezes.


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